CHOUETTE

21 05 2011

“Todo cachorro é complemento da vida humana. Todo ser humano deveria experimentar amar um cão, só assim entenderia o que é o amor” (Altair Pereira)

“Chouette”, em francês significa uma pequena coruja; mas, na gíria francesa quer dizer menina bonita, “gatinha”. E foi com esses dois sentidos que eu lhe dei o nome de Chouette. Porque ela sempre foi, para mim, tão amada e tão preciosa quanto uma coruja, animal que eu amo demais. E também porque ela sempre foi uma verdadeira “gatinha”, uma “lady”, meiga e delicada…

Chouette nasceu no dia 01 de dezembro de 1996. E foi registrada com o nome de Flor pelo canil onde nasceu. Mas quando ela veio para minha casa, passou a chamar-se Chouette…

Ela entrou na minha vida num momento de quase desespero: eu havia perdido meu poodle Chubby e estava procurando outro cachorrinho. Na verdade, eu procurava um substituto para Chubby, e assim, eu queria um poodle micro toy, macho e preto… de preferência, com olhos cor de mel! Só que, após longa procura vã, eu estava quase desistindo. Foi quando, indo em direção à zona sul, vi, de repente, uma faixa anunciando: “Filhotes de poodle e maltês à venda”… Não tive dúvida: fiz meia volta e entrei no canil:

— Infelizmente, todos já foram vendidos… Só restou uma cadelinha que, não sei por quê, não teve interessado. Ela já está com quatro meses e eu já a estou criando para mim… Mas se a senhora quiser…

Sim, eu queria, e muito! Mas falei à proprietária que desejava que um veterinário de minha confiança a examinasse. Ela não se opôs. Então minha filha e seu então namorado, ambos veterinários, foram examinar a cadelinha. E me aconselharam a não comprá-la: ela parecia não ter nenhum problema, nem sentir dor, nada, mas não caminhava: só se arrastava… Fiquei desolada, e fui ver a cadelinha mais uma vez: e de fato, ela só se arrastava, muito mimosa, muito carinhosa, muito alegrinha… mas só se arrastava!…

Passados alguns dias, eu já me conformando de partir para nova procura, quando, passando de novo pelo canil, senti uma vontade louca de ver a cadelinha uma última vez. A funcionária foi logo falando:

— Sinto muito, Senhora, mas a dona do canil não se encontra. E eu não posso pegar a cadelinha. Mas se a senhora quiser, pode olhar pela janela.

Foi a minha sorte! A cadelinha estava dentro de uma grande gaiola gradeada; do lado de fora, uma enorme rotweiller preta caminhava em volta da gaiola, brincando com a pequena poodle. Esta, feliz com a companheira, caminhava por toda a gaiola, seguindo os movimentos da outra…

No dia seguinte já estava comprando a pequena poodle, que não era micro toy, nem preta, nem macho, e nem tinha os olhos cor de mel; mas eu estava feliz com a aquisição!

E Chouette entrou na minha vida, tornando-se minha companheira, trazendo-me alegria e me dando muito carinho. Tornou-se minha sombra, pois estava sempre a meu lado, acompanhando-me por todo canto da casa. Onde quer que eu fosse, ela ia atrás, mesmo nos últimos tempos, já velhinha e doente, caminhando com dificuldade, ainda assim, procurava estar sempre a meu lado. Fidelíssima, sempre se mostrou muito dócil, brincalhona e obediente. Inteligente como só ela! Sempre aprendeu rápido tudo que lhe ensinei: jogar bola, buscar meu chinelo, dar “boa tarde”, subir no “patinette”, e uma infinidade de outras coisas… Adorava que eu jogasse a bolinha para ela pegar; e ela “voava”, correndo no corredor! (O que me fez concluir que ela, no canil, quando não me conhecia, se arrastava por timidez ou medo.) Sabia  bem quando eu ia sair apenas por um detalhe: colocar sapato de salto! Podia me arrumar, me enfeitar, me perfumar… mas se ficava de calçado de salto baixo, ela não estava nem aí. Agora, era só colocar sapato de salto, ela vibrava de alegria, na esperança de ir junto. Já com minha filha Amanda ela tinha outro indicativo: mesmo em casa, Amanda está quase sempre de sapato de salto. Então, como Chouette sabia se Amanda ia sair ou não? É simples: quando Amanda está se preparando para sair, ela caminha rapidinho pelo apartamento… E Chouette já tinha percebido isto: era só minha filha caminhar rapidinho que a cadelinha se entusiasmava toda e começava a segui-la pelo apartamento, querendo ir junto. E tudo isso por quê?… Apenas porque  ela raramente ficava em casa; toda e qualquer saída que dávamos, podendo, Chouette ia junto. Ou melhor, costumava ir… É que nos últimos anos minha saúde me tem feito ficar mais em casa… Por isso, também os passeios de Chouette haviam diminuído; mas nem por isso ela perdera a esperança, pois sempre soube que, se fosse possível, iria junto.

Quando Chouette veio para minha casa, Ágata, a cadelinha de minha neta, ainda ficava muito comigo. Sobretudo nas férias, quando eu ia para Santa Catarina, Ágata e Chouette iam junto e se divertiam correndo pelo gramado. A viagem, em si, já era uma diversão para elas: o bagageiro da camionete, interno, tinha uma tampa e as cadelinhas ficavam deitadinhas ali em cima, pegando vento e olhando o movimento da estrada… Se eu ia fazer compras na cidade vizinha, elas iam junto: Lá, em quase todos os locais elas podiam entrar, sem problemas; e se comportavam como umas “ladys”! Na sorveteria, nos restaurantes à beira da praia, em lojas…

Quando Chouette estava com quase dois anos, Ágata deu cria: nasceram três lindos filhotes! Minha neta estava encantada com os cachorrinhos; mas minha filha foi logo explicando que os filhotes seriam vendidos; não havia condições de ficarem com eles… Minha neta ficou triste e pensativa. Um dia, chegou para minha filha e disse :

– Mamãe, já sei: a vovó fica com um, a Dinda (minha filha mais velha) com outro, e Amanda com outro…

Pensou e disse: pegou o telefone e me pediu para ficar com os três filhotes…

– Olha, querida, com os três a vovó não pode ficar; mas se quiseres posso ficar com um…

Foi assim que Anne, a minha linda bichon-frisée, entrou na minha vida! Chouette recém completara dois anos quando a filhotinha veio para minha casa. Anne estava com dois meses e era muito ativa, alegre e brincalhona. Chouette, adulta, ficava meio sestrosa diante dos arroubos de entusiasmo da pequena bichon, que a convidava constantemente para brincar. Mas foi só no início: depois se tornaram amigas e companheiras… No inverno sempre deu gosto ver as duas dormindo juntas, quase enroladas uma na outra. Por isso, hoje é quase impossível falar de uma sem falar da outra. Parece que sempre se complementaram.

Anne, hoje, está com doze anos, mas continua sadia e cheia de vida. Adora que brinquem com ela, fazendo-a correr; tem um olhar expressivo e reconhece com alegria o som da palavra “vamos”, que para ela significa passear… Há poucos anos atrás ela me deu um susto enorme, quando apareceu um tumor maligno numa das mamas. Eu própria estava doente e fragilizada; então, diante da evidência de uma cirurgia, sofri muito, pois temia não poder cuidar dela. A cadelinha, contudo, se mostrou forte e teve  uma recuperação extraordinária. Até hoje está ótima.

Chouette, também, Aos onze anos teve uma doença gravíssima no útero e teve de ser submetida a uma cirurgia. Temia que não resistisse: mas resistiu bravamente!

Essas pequenas companheiras já passaram comigo muitos momentos interessantes: viajaram para a praia, em Tramandaí, Capão e Santa Catarina; viajaram para Encruzilhada do Sul; fizeram inúmeros passeios por locais hípicos, etc. Mas também vivenciaram comigo situações nada agradáveis. Por exemplo: em 1999, eu conduzia minha filha, que se recuperava de uma cirurgia, em direção à Faculdade de Agronomia. Assim que cruzei a Cristiano Fischer, a vinte por hora, conforme recomendação médica, uma “senhora” tresloucada, entra a mil por hora na Av. Ipiranga, com o sinal fechado para ela, e abalroou meu carro na traseira esquerda, fazendo-o girar e virar para o lado de onde eu viera; quase paramos dentro do riacho! Não preciso dizer que meu susto foi enorme. E minha preocupação, maior ainda, pois o problema da minha filha era na coluna, e ela não podia sofrer impacto. Foram segundos de terrível preocupação. Mas minha filha ficou bem. E naquele momento eu sequer pensei nas cadelinhas, que estavam, como sempre, em cima da tampa do bagageiro, e a tudo assistiram… E pasmem: durante muito tempo elas tremiam ao entrar no carro; durante muito tempo ou elas ficavam no colo da minha filha, ou ficavam sentadas no banco carona, e eu ficava a fazer-lhes carinho. Ficaram muito assustadas.

Em 2003, quando sofri um seqüestro-relâmpago, elas estavam comigo, e sofreram nas mãos dos bandidos, que as arrastaram no meio do mato, entre guaraguatás. Quando fomos socorridas por um anjo a cavalo, que surgiu do nada, e nos atendeu, chamando a polícia, as cadelinhas estavam tão apavoradas, sobretudo a bichon, que não queria entrar na viatura por nada: aquele carro estranho representava nova ameaça para ela. Só quando a coloquei no meu colo é que ela ficou mais tranqüila. E o mais estranho foi quando um motorista, conhecido meu, não delas, foi me buscar na delegacia, elas entraram no carro dele sem qualquer problema…

Os anos passaram, a vida se acalmou um pouco, comecei a ter mais cautela ao levar as cadelinhas… Tinha medo que elas viessem a sofrer alguma violência. Além disso, pouco a pouco minha saúde começou a me prender mais em casa, e essa presença constante me aproximou ainda mais de minhas cadelinhas, que agora ficavam horas e horas ao meu lado. Não importando em que peça da casa eu me encontre, elas sempre procuraram ficar em volta de mim. Sobretudo Chouette que, como Poodle, é um animal muito agarrado com seu dono, até ciumento dele, “grudento” mesmo… Dia enoite! Minha verdadeira sombra!

Mas hoje me sinto uma pessoa estranha, pois perdi minha sombra: imaginem uma pessoa andando ao sol e não ver sua imagem refletida na areia: é como se essa pessoa fosse invisível, ou não existisse… É assim que me sinto hoje! Chouette despediu-se dessa vida no dia 19 de novembro, doze dias antes de completar quatorze anos! E eu deixei de existir, mergulhada em tristeza e saudade.

Nara V. Klafke

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